Economia brasileira pode perder força e entrar em recessão em 2027, apontam projeções
O Brasil poderá
enfrentar uma recessão em 2027, diante do aperto das condições financeiras e da
perda de força dos principais motores da economia. Projeções do Instituto
Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), de consultorias e
de instituições financeiras apontam para um crescimento do Produto Interno
Bruto (PIB) próximo de 1% no próximo ano, mas não descartam uma contração da
atividade.
Um exercício
preliminar do Ibre-FGV indica que, caso continue a deterioração das condições
financeiras, com juros e dólar em alta, os setores mais sensíveis ao ciclo
econômico — comércio, indústria de transformação e serviços — poderão registrar
queda de 0,5% em 2027.
Mesmo com uma
expansão estimada em 1% nos setores considerados exógenos, como agropecuária e
indústria extrativa, o resultado poderia ser de estagnação do PIB.
Outras
instituições já manifestaram preocupação com a possibilidade de recessão. A
Fecomercio-SP aponta o risco de uma contração em 2027 e menciona o esgotamento
do modelo de crescimento baseado no endividamento. O Itaú reduziu sua
estimativa de expansão do PIB para o próximo ano de 1,2% para 0,5%. Já o Safra
afirma que as projeções do mercado indicam aumento do risco de recessão.
Para Sérgio
Vale, economista-chefe da MB Associados e colunista da Folha, a possibilidade
de uma recessão se torna cada vez mais concreta. Ele compara o cenário a uma
versão mais branda de 2015, quando o PIB brasileiro recuou 3,8%, mas sem os
efeitos da Operação Lava Jato.
Crescimento
perde sustentação
A desaceleração
reflete mudanças na composição do crescimento econômico. Entre 2023 e 2025, a
agropecuária e a indústria extrativa responderam por aproximadamente um terço
do aumento do valor adicionado da economia, funcionando como importantes fontes
de sustentação da atividade.
Para 2027,
porém, a expectativa de crescimento mais fraco no campo e a desaceleração dos
preços e da produção de petróleo devem reduzir a contribuição desses segmentos.
Com isso, o desempenho do PIB ficará mais dependente do comércio, da indústria
de transformação e dos serviços.
O problema é que
esses setores enfrentam um ambiente financeiro desfavorável. O Indicador de
Condições Financeiras (ICF) do Ibre-FGV alcançou níveis restritivos,
influenciado pela alta dos juros internacionais e pelo avanço das taxas reais
de juros no Brasil, que oscilaram entre 9,5% e 9,7% ao ano. Esse quadro reduz o
estímulo ao crédito e limita o consumo e os investimentos.
A indefinição
sobre medidas para enfrentar o desequilíbrio das contas públicas também
contribuiu para aumentar a incerteza no mercado. Após o segundo turno das
eleições, as taxas de juros de mercado subiram, o dólar avançou e a Bolsa
registrou queda.
Para Silvia
Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre-FGV, mesmo uma eventual iniciativa
do governo para corrigir o desequilíbrio fiscal não eliminaria imediatamente as
dificuldades econômicas. Na avaliação dela, o país ainda enfrentaria um período
de ajuste.
A economista
considera que o aumento dos gastos públicos nos últimos anos e o endividamento
das famílias e empresas poderiam ser absorvidos gradualmente, sem
necessariamente provocar uma recessão. Para isso, porém, seria necessário um
ajuste fiscal considerado confiável, capaz de contribuir para a redução dos
juros que pesam sobre consumidores e negócios.
Inadimplência
recorde ameaça o consumo
Sem medidas
efetivas para melhorar o cenário fiscal, cresce também o risco de uma crise de
crédito, impulsionada pelo elevado endividamento das famílias.
Estudos do Banco
Central e pesquisas econômicas internacionais indicam que períodos de expansão
sustentados por forte contratação de crédito podem ser seguidos por fases de
retração. No Brasil, a concentração de dívidas em modalidades de juros elevados
e prazos curtos afeta especialmente as famílias de menor renda.
Dados da Serasa
mostram que o país chegou a 84,2 milhões de inadimplentes em setembro, o maior
número da série histórica. O total corresponde a 51,1% da população adulta.
Cada pessoa nessa situação acumula, em média, R$ 7.094 em débitos, enquanto o
valor médio de cada dívida é de R$ 1.693. A renda mensal média considerada no
levantamento é de R$ 3.790.
O
comprometimento do orçamento com o pagamento de dívidas reduz a capacidade de
consumo das famílias. Com menos dinheiro disponível para comprar bens e
contratar serviços, a atividade econômica pode perder ainda mais impulso.
O ex-diretor do
Banco Central José Júlio Senna classifica esse processo como um “desequilíbrio
patrimonial”. Segundo ele, famílias e empresas endividadas são obrigadas a
reduzir despesas para reorganizar suas finanças, o que acaba pressionando a
economia. O número de empresas em recuperação judicial também alcançou níveis
recordes.
“Pode ser cedo
para falar em recessão, mas isso não está descartado. Embora a economia opere
acima de seu potencial e o desemprego esteja baixo, tudo perde gás
rapidamente”, afirmou Senna.
Desemprego pode
voltar a subir
Apesar de a taxa
de desemprego estar em níveis historicamente baixos, o cenário pode mudar com a
desaceleração da atividade. A projeção para 2026 é de uma taxa de desocupação
de 5,6%, mas o indicador poderá se aproximar de 7% em 2027.
A perda de
dinamismo das atividades cíclicas também já aparece no comportamento da renda
das famílias. A Renda Nacional Disponível Bruta Restrita, indicador que ajuda a
medir os recursos disponíveis para sustentar o consumo, apresentou
desaceleração expressiva.
Entre 2021 e
2025, o crescimento real desse indicador avançou a uma média anual de 7,3%. No
acumulado de janeiro a agosto de 2026, porém, a expansão mensal havia
desacelerado para apenas 0,1%.
A combinação de
renda menos dinâmica, endividamento elevado, juros altos e incerteza fiscal
aumenta a vulnerabilidade da economia brasileira. Embora a recessão ainda não
seja uma previsão consensual, diferentes projeções indicam que 2027 poderá ser
um ano de crescimento muito baixo ou até de retração do PIB.
Desembargadora condenada por venda de sentenças deixa o Brasil e tem prisão decretada pelo STJ
A desembargadora
baiana Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo deixou o Brasil em 21 de
setembro, mesmo estando proibida pela Justiça de viajar ao exterior. Após
receber informações da Polícia Federal sobre a saída da magistrada, o ministro
Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), decretou a prisão
preventiva dela e de seu filho, o advogado Vasco Rusciolelli Azevedo.
Os dois foram condenados pela Corte Especial do STJ na quarta-feira (4), por participação em um esquema de comercialização de decisões judiciais no Tribunal de Justiça da Bahia.
O ministro determinou ainda que a Polícia Federal e a Interpol sejam acionadas para incluir os condenados na lista de foragidos.
Justiça solicita
prisão para extradição em Portugal
A ordem de prisão atendeu a um pedido do Ministério Público Federal (MPF), que apontou risco de fuga dos condenados.
Og Fernandes também autorizou o envio de um pedido de prisão para fins de extradição às autoridades portuguesas.
Condenações por negociação de decisões judiciais
Sandra Inês foi condenada a 14 anos e 20 dias de prisão, em regime inicial fechado, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
O filho recebeu pena de 13 anos e 11 meses de prisão pelos mesmos crimes, além de condenação por associação criminosa. A magistrada também teve a aposentadoria cassada.
As condenações são resultado das investigações da Operação Faroeste, que apurou um esquema de negociação de decisões judiciais favoráveis à empresa Bom Jesus Agropecuária em disputas de terras no oeste da Bahia.
Segundo a
investigação, Sandra Inês liderava o grupo e teria proferido quatro decisões em
três processos, entre 2017 e 2020, mediante promessa de pagamento de R$ 4
milhões em propina. Desse montante, R$ 3,3 milhões teriam sido efetivamente
pagos.
O esquema também envolvia Vasco Rusciolelli Azevedo, apontado como responsável por participar das negociações e receber valores, e o advogado Júlio César Cavalcanti, que atuava na intermediação dos pagamentos e na elaboração de minutas das decisões posteriormente assinadas pela desembargadora.
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